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Medicamentos aprovados pela Anvisa para emagrecimento
O que o registro significa, como agem as classes de remédio, para quem a indicação foi aprovada e por que a decisão continua sendo médica.

Quem pesquisa remédio aprovado pela Anvisa para emagrecer quase nunca procura milagre. Procura um jeito de sair do ciclo de dieta interrompida, peso que volta e recomeço. A aprovação é um bom ponto de partida para separar tratamento de promessa, mas não responde sozinha se um medicamento serve para você.
O que a aprovação da Anvisa significa
Um medicamento aprovado passou pela avaliação de segurança, eficácia e qualidade da agência reguladora para uma indicação específica. Pode, portanto, ser usado no Brasil dentro daquela indicação, com prescrição e orientação. Isso não quer dizer que seja adequado para qualquer pessoa, nem que dispense acompanhamento.
A pergunta certa tem duas partes: o remédio está aprovado para o controle do peso, e eu me encaixo na indicação? A segunda resposta depende do seu histórico, dos exames, dos outros remédios que você usa, da alimentação, do sono, da saúde mental e de como você tolera efeitos adversos. No tratamento do peso, personalização é segurança, não detalhe.
As classes de remédio para controle do peso
Em 2024, a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicaram um posicionamento que revisa os medicamentos aprovados no Brasil para tratar a obesidade e inclui a tirzepatida, que na época ainda aguardava aprovação no país. Esses remédios pertencem a classes diferentes, cada uma com mecanismo e perfil de segurança próprios:
- remédios que agem como hormônios intestinais ligados à saciedade, como os da família do GLP-1 e a tirzepatida;
- a combinação de bupropiona com naltrexona, que atua em regiões do cérebro ligadas ao apetite e à recompensa;
- um remédio que reduz a absorção de parte da gordura dos alimentos no intestino;
- um remédio de ação central sobre o apetite, de uso mais restrito.
Além da tirzepatida e da bupropiona com naltrexona, as demais opções dessas classes existem e têm indicação definida pelo médico, mas não fazem parte do tratamento da elas. A seguir, o que a Anvisa aprovou para as duas que fazem.
Tirzepatida (Mounjaro)
O Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, já tinha registro na Anvisa para o controle da glicose em adultos com diabetes tipo 2. Em junho de 2025, a agência aprovou uma nova indicação: o controle crônico do peso, incluindo perda e manutenção, em adultos com obesidade ou com sobrepeso e ao menos uma doença ligada ao peso, como hipertensão, colesterol alto, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2. A indicação prevê o uso junto com dieta de baixa caloria e mais atividade física.
A tirzepatida age nos receptores de dois hormônios, o GIP e o GLP-1. Segundo a Anvisa, ela retarda o esvaziamento do estômago e reduz a ingestão de alimentos, o que produz saciedade. A aplicação é semanal, por injeção subcutânea, e a dose sobe aos poucos.
A página da agência lista os principais riscos observados nos estudos de controle de peso: eventos gastrointestinais, problemas da vesícula biliar, reações alérgicas e reações no local da injeção, além de efeitos como queda de cabelo, tontura e pressão baixa. E prevê que, se a perda de peso não chegar ao mínimo indicado depois de seis meses de aumento gradual até a maior dose tolerada, a continuidade do tratamento seja decidida pesando riscos e benefícios.
A aprovação descrita aqui é a do Mounjaro, produto da Eli Lilly. A elas. também trabalha com a tirzepatida manipulada, preparada por farmácia de manipulação a partir da receita.
Bupropiona com naltrexona
A combinação de bupropiona com naltrexona, vendida como Contrave, foi aprovada no Brasil em 2023, segundo uma carta aos profissionais de saúde publicada no site da Anvisa. A indicação também é o controle crônico do peso em pessoas com obesidade, ou com sobrepeso e ao menos uma doença ligada ao peso, como hipertensão, diabetes tipo 2 ou colesterol alto, junto com dieta de baixa caloria e mais atividade física.
Os dois componentes agem em áreas do cérebro que regulam a ingestão de alimentos: o centro do apetite e o sistema de recompensa. O comprimido é tomado por via oral, com dose que aumenta nas primeiras semanas.
A carta, enviada em 2026 pela Merck S.A. em acordo com a Anvisa, traz novas recomendações. Segundo o texto, os riscos cardiovasculares do uso por mais de um ano ainda não foram totalmente estabelecidos, e um estudo em andamento deve trazer resultados em 2028. Por isso, a orientação passou a ser interromper o tratamento após um ano se a perda de peso não tiver se mantido e fazer uma reavaliação anual, discutida com a paciente, que confira a manutenção da perda de peso e a ausência de piora no risco cardiovascular. O mesmo texto lembra que o remédio deve ser suspenso após 16 semanas se a perda de peso inicial for insuficiente.
Os efeitos adversos mais comuns, segundo a bula americana, são náusea, intestino preso, dor de cabeça, vômitos, tontura, insônia, boca seca e diarreia. A combinação pode aumentar a pressão e os batimentos cardíacos, e a bula traz um alerta para o risco de pensamentos e comportamentos suicidas; mudanças de humor devem ser comunicadas ao médico. Entre as contraindicações listadas nessa bula estão pressão alta sem controle, histórico de convulsões, bulimia ou anorexia e o uso de outro remédio com bupropiona, princípio ativo também presente em antidepressivos.
Gestação, amamentação e pílula
Para quem pode engravidar, as bulas americanas dos dois medicamentos dizem o mesmo sobre a gravidez: perder peso nessa fase não traz benefício e pode prejudicar o feto. Por isso, o remédio deve ser suspenso assim que a gestação for confirmada. Na amamentação, os dados são limitados, e a decisão pesa os benefícios do aleitamento, a necessidade clínica e os possíveis riscos para o bebê.
Com a tirzepatida, há ainda um cuidado com a pílula. O remédio pode reduzir o efeito do anticoncepcional oral, e a bula orienta trocar para um método não oral ou somar um método de barreira nas quatro semanas seguintes ao início e a cada aumento de dose. Mais detalhes em Como usar GLP-1 com segurança no emagrecimento.
Como saber se o remédio é indicado para você
A decisão não parte só da vontade de perder alguns quilos. O médico considera índice de massa corporal, medida da cintura, doenças associadas, tentativas anteriores, padrão de fome, exames e rotina. Isso evita dois erros: medicar quem resolveria com ajuste de hábitos e acompanhamento nutricional, e atrasar o tratamento do peso de quem convive há anos com obesidade e risco metabólico.
A expectativa também conta. O papel do remédio é tornar o emagrecimento mais viável, reduzindo barreiras como fome excessiva e saciedade difícil. Resultado consistente se constrói em meses, não em dias.
O que muda com acompanhamento
As informações aprovadas para os dois medicamentos preveem momentos de reavaliação, e isso diz muito sobre como eles devem ser usados.
Remédio aprovado não é remédio para usar no piloto automático.
Com avaliação adequada, o médico define se há indicação, escolhe a opção mais compatível com o seu perfil, ajusta a dose, acompanha a resposta e age cedo diante de efeitos adversos. Sem isso, muita gente interrompe o tratamento cedo demais ou insiste em algo que não está funcionando.
Cada organismo responde de um jeito. Há quem tenha ótimo controle do apetite e boa tolerância, há quem precise subir a dose mais devagar e há quem se beneficie de trocar de remédio ou de tratar junto a ansiedade e a compulsão alimentar.
O risco dos atalhos
A pressa empurra para atalhos inseguros: automedicação, compra sem avaliação, doses inadequadas, combinações improvisadas e interrupções bruscas. Isso aumenta o risco de efeitos adversos, de frustração e de reganho, e ainda atrapalha a leitura do que está funcionando.
Conveniência não precisa significar superficialidade. O ideal é combinar acesso fácil com decisão médica séria: histórico revisto, conduta definida e acompanhamento em todas as etapas.
O que perguntar antes de começar
- Existe indicação real no meu caso?
- O que é razoável esperar em semanas e em meses?
- Quais efeitos adversos merecem atenção?
- Como o remédio combina com o meu método anticoncepcional e com os meus planos de gravidez?
- Como será o acompanhamento, e quando a continuidade será reavaliada?
São perguntas simples, mas evitam boa parte das expectativas erradas. Em saúde, clareza reduz ansiedade, e no tratamento do peso a ansiedade costuma atrapalhar a constância.
Referências
- Moreira RO, Valerio CM, Hohl A, et al. Pharmacologic treatment of obesity in adults and its impact on comorbidities: 2024 update and position statement of specialists from the Brazilian Association for the Study of Obesity and Metabolic Syndrome (Abeso) and the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2024;68:e240422.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação. Brasília: Anvisa; 2025.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Contrave® (naltrexona/bupropiona): risco cardiovascular a longo prazo e novas recomendações sobre avaliação anual. Carta aos profissionais de saúde. Brasília: Anvisa; 2026.
- Eli Lilly and Company. Zepbound (tirzepatide) injection, for subcutaneous use: full prescribing information. Revised 08/2026. Silver Spring (MD): U.S. Food and Drug Administration; 2026.
- Currax Pharmaceuticals LLC. Contrave (naltrexone hydrochloride and bupropion hydrochloride) extended-release tablets, for oral use: full prescribing information. Revised 11/2025. Silver Spring (MD): U.S. Food and Drug Administration; 2025.


